terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Meu outro mundo

     Vamos tentar retroceder à minha primeira infância, ou mais ainda, vamos retroceder aos primórdios de minha ascendência.
     Como Sinclair, vi o mundo dividido em dois: o mundo luminoso é o que relata minha infância. De útil nada me vem à memória, lembro do lar paterno, alguns familiares, diversão, bondade, brincadeiras, alguns primos e... Pai e mãe. Eu ainda podia aturar todos os laços familiares que grudavam em mim por conforto e segurança. Naquela época, o mundo luminoso parecia certo, suficiente, porém, o mundo oposto era curioso, era completamente diferente, tinha outro odor, havia palavras de baixo calão, policiais perseguindo ladrões, homens embriagados que batiam em suas mulheres, histórias de roubos, assassinatos, suicídios, drogas... Mas também tinha amigos. Era isso... Mas era atraente. Quando dei por mim, me encontrei presente nos dois mundos, não porque quis, mas porque era a vida.
     Eu pensava que o mundo luminoso estaria de portas abertas para mim. Hoje não está mais e, o outro mundo aparece de braços abertos, querendo me confortar pela decepção que seu adversário me deu.  Ele acaricia meu rosto, enrola algumas mechas do meu cabelo nos dedos...
     Os laços familiares, presos a mim nos primórdios de minha ascendência, foram cortados conscientemente, “alguns”, não foi preciso cortar, tornaram-se brasas. Por alguma consideração, dois ou três ganharam um , mas nada hei de fazer  para desmanchá-lo. Se quiserem este laço, que o faça eles mesmos.
    Agora, me encontro com um laço cinza, envolta do meu corpo nu. Apesar de este mundo ser tudo o que é, o escuro nele presente, me deixa tão em paz quanto ficava no mundo luminoso.
  - Eu me entrego inteiramente, ao mundo que me confortou quando mais precisei, sem receio algum, com um laço de amor.-

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Supernova


- Eu adoraria saber... Que somos poeira de estrelas. Adoraria saber que do espaço viemos e para o espaço retornaremos. Eu seria uma estrela de novo e, de novo me autodestruiria, voando por negra imensidão sem fim, a milhões de quilômetros por hora. Eu finalmente me sentiria completa, sem nada a completar, eu não saberia o que é solidão, mas provavelmente sentiria falta de algo... De livros, mas só dos bons. Só os que narraram minhas centenas de vidas, só os que me criticaram, uns que mancharam meu corpo celeste, outros que construíram em mim um castelo. Nada de reis, rainhas, príncipes e princesas, nada de conto de fadas, uma vez que não necessito de ambos. Um conto de fadas para quê? Se tenho toda uma grandeza material e imaterial na realidade?
    O que vejo, mas são invisíveis aos olhos nus, analiso com a mente, sem limite, sem tempo. Ai esta o desgraçado do tempo! Para que me limitar às horas, aos minutos, aos segundos? O meu relógio já esgotou a pilha barata, graças a mim. Quebrei e, vivi um bom tempo sem tempo.
     De olhos fechados eu vi e, eu descobri o que era mais importante para mim em vida, minha consciência, o meu intelecto, só meu. Então observei milhares de segredos, angustias, ódio e paixão. Amor? Que amor o quê... Só conheço um amor, um amor sem sentimento e sem amor. Não pretendo esbarrá-lo em qualquer canto ou dizer que amo sem amar, ou chorar de novo... Como chorei nas guerras, mas como as aplaudi, em pé, sem chapéu. Eu pensei em lutar, sem pensar. Eu ouvi tudo detalhadamente, no silêncio, sem ruídos. Eu vi a morte passar por mim, num beco sem saída, pintado de preto, beco por que passo todos os dias, beco este que venda meus olhos.
    Desapareci no nada por pelo menos um segundo, eu não questionei, não exigi. Meio fraca, assisti à minha vida incansável mais uma vez, cansada de viver. Quando pensei que a alegria procurava por mim, me deparei com uma armadilha da tristeza e, cai no buraco, sem lutar. Pensei por um momento, que não queria esperar para ser uma estrela. Decidi então dar inicio à minha autodestruição, eu mesma.